Acusar uma repórter de 'seduzir' fonte infelizmente é prática comum - 14/02/2020 - Renata Mendonça


Uma coisa inédita e outra coisa muito recorrente aconteceram nesta semana. Na quarta-feira (12), 2.411 mulheres assinaram um abaixo-assinado em defesa da repórter Patrícia Campos Mello, que sofreu ataques mentirosos.

Começou com uma fonte de sua reportagem dizendo que ela tentou seduzi-lo para conseguir informações. Depois, veio o comentário do filho do presidente da República afirmando que não duvida que a jornalista da Folha tenha se “insinuado sexualmente” em troca de informações. E daí surgiu uma avalanche de acusações infundadas sobre a conduta da jornalista na sua apuração.

Acusar uma repórter de “seduzir” uma fonte infelizmente é prática comum no meio do jornalismo. O que não era comum –até terça (11)– era ver mulheres se unindo para defendê-la publicamente. Foram quase 2.500 assinaturas, e seriam ainda mais se o documento ainda estivesse circulando.

Não vi uma jornalista sequer se recusando a demonstrar apoio à Patrícia nem se abstendo de se manifestar contra os ataques machistas que ela sofreu ao longo dos últimos dias. Essa união de mulheres é inédita, é forte –e é irreversível.

Poderia contar aqui dezenas de casos que vivi ou que ouvi sobre mulheres no jornalismo esportivo tendo suas apurações questionadas por homens (na maioria das vezes) que sempre usaram o mesmo argumento: “como ela conseguiu isso? Com certeza deu para alguém”. E daí começavam os boatos para difamar o trabalho dessas jornalistas.

Uma colega de profissão contou que uma vez deu uma notícia de bastidor sobre um clube de futebol e, quando um setorista daquele clube foi questionado pelo chefe sobre por que ele não tinha essa informação, a resposta foi: “ela usa de recursos que eu não tenho”. Todo mundo entendeu sobre quais recursos ele estava falando. Quando, na verdade, a única coisa que talvez faltasse a ele –e a ela sobrasse– era a competência.

Para evitar isso, todas nós tomamos cuidados na profissão que os homens nem sequer sabem que existem. Nós evitamos marcar reuniões com fontes depois de 18h –aliás, nem mensagens de celular mandamos após esse horário, pelo medo do que podem pensar.

Se estamos fazendo uma reportagem, e o entrevistado sugere um café, pensamos 30 vezes antes de aceitar, porque “será que estaremos dando margem a interpretações erradas?” E se por acaso aceitamos, e o cara tenta alguma coisa, nos sentimos culpadas porque, afinal de contas, nós aceitamos o café.

Quando uma mulher consegue um furo, raramente os comentários nos bastidores das Redações são a respeito da qualidade do trabalho dela. Sempre existe o “como ela conseguiu isso?”, que vem obviamente acompanhado de insinuações sobre a conduta ética e sexual dela.

Nunca passa pela cabeça desses caras que uma mulher pode conseguir uma notícia exclusiva pura e simplesmente porque ela é boa. Porque ela é capaz.

No jornalismo esportivo, então, em que elas são absoluta minoria, como poderiam conseguir informações que seus colegas homens, tão mais inteligentes –sabem até o que é impedimento, pasmem!–, não conseguiriam? Sexo. Não tem outra explicação.

Só que tem. Tem a explicação de que mulheres também sabem fazer jornalismo (seja ele na política, no esporte ou em qualquer área). A lição que fica disso é que, para cada homem que tente desqualificar o trabalho de uma mulher, teremos 2.411 (e muito mais) mulheres prontas para defendê-la.